Disciplina sobre Messianismo e Milenarismo

No segundo semestre de 2016, o Programa de Pós-Graduação em História Social da USP recebe o Prof. Dr. Luís Filipe Silverio Lima (UNIFESP) que ministra a disciplina “Messianismo e Milenarismo no Mundo Atlântico da Época Moderna”.

GRD_117_imperio_sonhos_capa_alta

Detalhe da capa do livro “O Império dos Sonhos – Sebastianismo e messianismo brigantino”, Ed. Alameda.

Objetivos: Este curso pretende: 1) delinear as principais questões teóricas e historiográficas nos estudos das últimas décadas acerca do messianismo e milenarismo da Época Moderna; 2) mostrar os fundamentos do pensamento profético da Época Moderna, bem como alguns movimentos, grupos e autores, por meios da análise de fontes primárias; 3) refletir sobre as relações e circulações entre diferentes interpretações politico-proféticas em torno do mundo atlântico, desenvolvidas, entretanto, dentro de diversas perspectivas religiosas; 4) tentar aproximar tendências e linhas interpretativas da Época Moderna que, por razões a serem apontadas nas primeiras aulas, foram sempre estudadas de modo independente e separado. A proposta é que, assim, menos do que uma análise comparatista ou a simples constatação da presença do messianismo e do milenarismo no mundo ocidental, o curso consiga destacar e apontar as conexões entre esses movimentos, grupos e ideias, buscando repensar as fundações da Cultura Política na primeira modernidade.

Justificativa:

A proposta do curso é tratar da circulação ampla de textos e argumentos que uniam profecia, poder e legitimidade monárquica no mundo atlântico da Época Moderna. Ampla pois transpassava não só as fronteiras dos reinos, mas também as confessionais e religiosas. Em parte, porque seus propositores e defensores tiveram que se ver com desafios similares para atualizar a tradição escatológica judaico-cristã e, para tanto, constituiu-se uma rede de múltiplos eixos pela qual ocorriam debates (e confrontos) bem como intercâmbio e trocas a fim de superar os impasses colocados. Ao se confrontar com a tradição escatológica, os formuladores dessas esperanças proféticas precisaram pensar a reconfiguração da Cristandade e cisão no seio da república cristã pensada como universal, por conta das Guerras de Religião, bem como participar ou assimilar a discussão sobre a ideia de Soberania, reposta nas disputas entre as diferentes monarquias confessionais (e seus projetos imperiais) e aumentada pela questão do surgimento dos Impérios ultramarinos e da conversão/submissão de novos súditos e vassalos no Novo Mundo. Também pretende-se discutir em que medida convergiam em suas propostas como fruto de enfrentamentos comuns, partilhados no (ou a partir do) mundo ultramarino e nas franjas do Império Espanhol. Por fim, estavam às voltas com velhas questões que se viam ressignificadas com as mudanças confessionais e a migração de populações, como o caso dos judeus e cristãos-novos. Em resumo, tinham que lidar com os variados modelos de monarquia, império, república e suas jurisdições sobre os povos e nações, que estavam em discussão desde meados do séc. XVI, ao mesmo tempo que era necessário dar conta de inserir num sistema escatológico existente (atualizando-o) um Novo Mundo com novas Gentes. Emprestando a terminologia de Koselleck, buscar-se-á constituir essas ligações proféticas que permearam projetos milenarista-messiânicos e, não se pode esquecer, político-sociais como “horizontes de expectativa” pensados a partir de “espaços de experiência” dinâmicos. Expectativas e experiências que precisavam se moldar a um mundo em movimento mais rápido; que tinham que, por um lado, dar conta do alargamento do globo (e das redes comerciais), e, por outro, da divisão da cristandade ocidental entre protestantes e católicos, do esfacelamento do projeto imperial em torno do Sacro Império e de Roma, gestado na Idade Média Tardia, além da ameaça concreta ao Levante do Império Turco, após a expansão das Reconquistas. Para além disso, desde finais do séc. XV colocava-se o problema da conversão à fé de Cristo de grandes grupos populacionais (à alternativa, por vezes complementar, de destruí-los ou subjugá-los). No Novo Mundo e no Ultramar, havia os gentios (na Ásia, na África, mas sobretudo na América); no Velho, os judeus, convertidos em massa (e, muitas vezes, à força) na Península Ibérica, e mesmo a própria conversão de católicos em protestantes e vice-versa; situações que movimentaram, por um lado, amplos debates e, por outro, ampla literatura propagandística e exemplar. Essas questões foram enfrentadas, entre outros, por: os missionários cristãos (puritanos, jesuítas, franciscanos) que buscaram converter as populações indígenas, e tiveram que, para isso, discutir o papel desempenhado por eles num esquema escatológico pré-existente; pelos sebastianistas que estavam à espera do Encoberto D. Sebastião, desaparecido no Norte da África, e que desenvolveram uma expectativa messiânica pela qual seu retorno seria a derrota dos impérios otomano e espanhol; os apoiadores da nova dinastia de Bragança que com o fim da União Ibérica em 1640 e as Guerras de Restauração (1640-68) tentaram justificar a autonomia portuguesa em relação à Espanha; o messianismo judaico ligado à sinagoga de Amsterdã (formada por cristãos-novos ibéricos) e ao Brasil Holandês (1630-1654); e nos pentamonarquistas que atuaram durante a Revolução Inglesa e dialogavam com as comunidades da Nova Inglaterra – talvez, de todos, o grupo que levou mais radicalmente a proposta de fundar um reino de Cristo na Terra.

Mais informações sobre a disciplina estão disponíveis no sistema Janus USP https://uspdigital.usp.br/janus/Disciplina?sgldis=FLH5438

Advertisements
This entry was posted in Uncategorized and tagged , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s